domingo, 30 de abril de 2006

Procura da Poesia

por Carlos Drummond de Andrade

Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.


sexta-feira, 28 de abril de 2006

Dos causos e percalços da tal vida moderna

Causo 1: O perseguido

Certo dia chega o professor em aula para justificar porque faltar na semana passada. Ele, com um olhar caustrofóbico, começa a justificativa:

- Creio ter de deixa-los a par da situação que me aconteceu na semana passada ao qual me forçou a não vinda. Há muitos anos atrás, aqui na faculdade de letras, dei aula para uma moça que se via não ser lá muito normal, que teria sérios problemas psicológicos. O caso foi que anos depois me deparo com essa mulher me perseguindo, ligando para minha casa e me ameaçando e até vindo aqui na faculdade me agredir, como na semana passada. Ela alega que há algum tempo professores aqui do Fundão a pegaram e levaram a força para o CCNM (prédio de exatas) e começaram a fazer experiências científicas com ela do tipo injetarem esperma dentre outras coisas. Agora ela anda dizendo por aí que dessa experiência nasceu um menino e uma menina, loiros de olhos azuis, sendo que ela é uma negra alta e eu, não sou loiro!

É, para quem almeja vida de professor e acha que o maior problema que enfrentará será ou descaso do governo ou do aluno, vê-se que há além de tudo os ‘fãs’ perscrutando no ir e vir.

Causo 2: O comentário

Estava certa amiga esperando seus amigos na porta de certa pizzaria em certo lugar quando avistou d’outro lado da rua 3 rapazes conversando descontraidamente, sendo que um deles foi ao seu encontro. Daí desenvolveu-se uma boa conversa, de fato a famosa ‘conversinha’ sobre o que ambos faziam e coisas afins. O causo é que passado certo tempo, ali na porta da certa pizzaria, o clima estava feito e tanto o rapaz quanto a menina sentiam-se inclinados a galgar um degrau na recente amizade. Então, cavalheiristicamente o rapaz pede para a moça o direito de beijar seus lábios. Contudo, bem no meio do caminho da concretude do desejo de ambos, vem ele com seu comentário: não sei se você se importa, mas tenho namorada.

Quebra a força, não quebra? Ela, muito dignamente, dispensou o moçoilo cara de pau na mesma hora. E ele soltou um ‘ai que pena’ desconsolado. E não querendo comentar, mas já fazendo meu comentário, tinha de ser um engenheiro mecânico.

Causo 3: O enunciado

Havia eu recebido a discursiva prova de Literatura Inglesa, quando parto diretamente para a consecução da primeira questão que era, na minha concepção, recontar a história das três baladas que fora dada no título. Assim começo minha prova, sem nada mais pensar. Da primeira faço uma notícia de jornal, da segunda um roteiro de filme; da terceira tinha opção de fazer um conto infantil, mas desisti porque não havia tanto tempo assim disponível, afinal ainda tinha a segunda questão, a qual valia 6,5.
Na minha inocência de aluna aleatória ainda achei estranho o tamanho da primeira questão que só valeria 3,5. Contudo segui na façanha até chegar na segunda questão: interpretar um poema e com a sanção de fazer um parágrafo com 500 palavras. O 500 desesperou-me, fiz por volta de 250 e forçando muito. No desespero ao final da prova pergunto ao professor se ele se importava que fosse menos, ele respondeu que iria ver o que estava escrito, não iria contar palavras, 500 era só pra ter uma base (sim, o que são 500 palavras numa questão, não é?
E olha, até que estaria tudo nos eixos se não descobrisse que era uma balada para escolher, não as 3 reescrever, e que com isso além de ganhar boas debochadas do professor (“olha só, aluno de letras e não sabe ler enunciado”), ganho uma nota limitada, do tamanho da minha falta de atenção.

quarta-feira, 12 de abril de 2006

Epifania da greve

Acordou quinze pras seis. Sabia que já estava atrasada, então dormiu até as seis quando foi despertada de vez de seus sonhos. Levantou-se com a preguiça típica imaginando o dia que se configuraria e quanto teria de correr para não fazer de um pequeno atraso a vergonha de se entrar no meio da aula. Quase despertou de vez na hora de escolher a roupa; hoje é dia de azul... azul claro, pensou. Colheu o azul do céu bonito da manhã fresca com os olhos, e assim o copiou para seu guarda-roupa. Em nove minutos estava pronta para o café, muito pão de forma com maionese porque hoje não era dia de sentir fraqueza, era dia de prova. Forçou-se a comer tudinho e sair esbaforida para o elevador. Antes de sair do prédio de vez, separou o dinheiro, algo que nunca fazia antes de chegar ao ponto, porém hoje pareceu propício faze-lo. Caminhou pensando no frescor da manhã, que poderia ser assim o dia todo, uma brisa gelada pairando no meio de tímidos raios de sol. Chegava no ponto de ônibus estranhamente cheio. Teria acontecido algum acidente que impedia o fluxo dos ônibus? Era isso... Ninguém sabia de nada. Passam dois ônibus em direção ao seu primeiro destino, ambos lotados. Ela não se anima a pegar, afinal sempre vem outro atrás. Contudo não veio. E o que veio foram os telefonemas, “os ônibus estão em greve”. Greve? Mas não é possível, tenho prova, tenho compromissos, tenho de chegar lá me cansar o dia inteiro, voltar pra casa e reclamar do cansaço. Tem de ser assim, bramia nos pensamentos. Como podia estar tão vulnerável a uma greve de ônibus, ela e todos mil contáveis? Sentia que perdia a força, que era um alguém tão insignificante nessa história que nem o motorista do ônibus se importava. E sentia o preconceito em si “nem o motorista do ônibus”, porque haveria ele de se importar? Afinal, ela não se importava com a greve dele e esbravejava com cara chorosa contra a situação em pensamentos. Ao final de uma quase eterna hora, refletindo não haver condução que lhe sanasse o problema, entregou-se ao desgosto e foi ter em casa o troféu da decepção. Entrou, as pessoas formigavam. Ela se sentia impossibilitada de tudo. Teria de fazer uma segunda chamada que nunca fizera antes, nem quando na véspera de prova de teoria literária tinha extraído o siso. E agora, era assim? Sem ônibus, sem caminho, sem início, meio e fim. Ah, o fim, fim ela daria. Trancaria-se no quarto fechado com o pesado edredom e dali faria morada da sua inquietação cantando contos na mente e sonhando atravessado o dia que não acontecera. Teve vontade de chorar.

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Tempos depois: "acho que os ônibus voltaram...", ela agrade com sarcasmo a informação preciosa.

domingo, 9 de abril de 2006

Autobiografia

Seria esse blog uma autobiografia inventada ou uma ficção autobiográfica?

No fim acabo por traçar um tanto de fantástico na realidade, isso eu sei.

Mas foi justo autobiografia o tema de uma das oficinas de linguagem, daí que criei uma autobiográfia ficcional de um personagem aleatório.

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Autobiografia

Confesso que sou descendente direta de Eva. Minha doce mãe, na adolescência inconseqüente, usou de todo feminismo e sensualidade para roubar papai de sua sonsa noiva cheia de graça. Há os que não titubeiam pela maçã e foi daí que nasci, fruto proibido. Porém, como é mais que sabido nos ditos populares que o que é bom é escondido, nasceu eu, o melhor que poderia acontecer na vida de Adão e Eva dos anos 80. Claro, que como conseqüência para eles as atribulações foram muitas, afinal ser expulso do paraíso da irresponsabilidade juvenil não é tão simples. E aí foi que mamãe sentiu as dores do parto e no peito de tanto sugar sua energia, e papai no bolso. Foi 18 de outubro o dia. É, isso mesmo, faço parte dos filhos do carnaval. Embora eu mesma não me lembre do dia, lembro de mamãe tentando esquece-lo como se fora esse o motivo do pecado original. Acho que papai nunca gostou de lembrar também. Só gostaria de saber que deus os puniram com tamanha crueldade nessa história (tenho um palpite, o deus família). Contudo percebo felicidade em seus olhos ao verem que pela incauta maçã mordida originou-se toda um humanidade. A minha humanidade. Elejo-me assim a deusa solipsista deste mundo pois dessa biografia dita minha acabo por inventar cada linha da verdade que às vezes pode parecer pecadora, mas nada original.


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ps: tem um alemento que é repetido em relação ao texto anterior.

quarta-feira, 5 de abril de 2006

Alfabeto

Ali, bento cavalo derrotado, estando forçado, galgando história. Ia já levando mecanicamente nove outros parasitas queixosos, realizando sua tarefa, um veloz xucro zangado, zonziando xioso, vagando um tempo. Sem rumo queria poder ousar navegar melodiosa liberdade. Jazia ímpio horas galopando, fervorosamente ele demonstrando cuidado bestialmente amigo.

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Feito hj no ateliê de jogos de linguagem, o objetivo era construir um texto usando as letras do alfabeto. Como se repara vai de a-z e z-a. É divetido, além de quebrar a mente. E tem um traço aí que aparece em outros textos do curso, a restrição formal. (vamos ver se é descoberto através dos próximos textos q pretendo postar aqui da oficina).

domingo, 26 de março de 2006

Eu não sei fazer poesia.
Dessa neura que me arrepia,
Descobri! Não sei ritmizar...

Se o humano é ritmo, sou o quadrado.
De forma e conteúdo não tenho resultado
E já desisto de seguir com essa utopia.

Porque se há menos leitores que poetas nesse Rio
Deixo o verso para os mais dados ao desvario
E sigo com meu pulso atado.

É que tem gente que é pra admirar
E a mente resta conceder o direito de suspirar:
Ahh, eu não sei fazer poesia.

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:)

sábado, 25 de março de 2006

passa pensamento

Deu a simples vontade de vir aqui e ir escrevendo, escrevendo, traduzindo os últimos pensamentos, falando das músicas mais ouvidas e pqs inexplicáveis, reclamando até ou simplesmente refletindo sobre a saudade das coisas.

Mas não quero falar de saudade só. Quero cair na falta de coesão e falar de tudo junto, um grande panelão onde são jogas espectivas, pequenos traços do humor atual e pedaços de pensamentos andantes (como a imagem de se estar num ônibus em locomoção, na ponte...).

Acho que essa história de ficar quase 4h por dia num ônibus mexe com a gente. Ali se tem os melhores insights do dia, como se pode ter a maior melancolia. Também se encontra a maior saudade do mundo, olhando paisagens ignoradas de todo o dia, passando nuvens ou chuviscos, tudo passando. NO final é o que acontece.. estamos eternamente nessa de sermos empurrados pra algum canto, mesmo qdo nem damos um passo adiante.

E tem os pensamentos, ahh os pensamentos. Ultimamente tô nessa neura com a poesia (e não to tetando descontruir nada ¬¬). Então é que se tem a idéia de que de fato tristeza faz a melhor poesia de todas, no desentendimento aleatório que as palavras vêem com a sensação de enfahdo. Mas isso vem melhor em outra poesia... pq eu não sei fazer poesia.

Enfim, bons dias se passam, dias melhores espero. Eu acredito nisso. Sempre acreditei... Assim como acredito no diálogo. E acredito tb que tomar o fluxo de consciência nesse blog ajudará pra algo. Ou não! (como nos ensinou nosso primeiro professor de literatura :P)

segunda-feira, 20 de março de 2006

sei lá, poesia tem dessas coisas

Se pra ser poeta é preciso viver na solidão,
Não quero ser poeta não.
Se pra ser poeta é preciso viver no desassossego,
Essa inquietude eu postergo.
Se pra ser poeta é preciso alma triste,
A minha de sê-lo desiste.
Se pra ser poeta é preciso viver pouco,
Prefiro viver e ser qualquer outro.
Se pra ser poeta é preciso melancolia,
Já rasgo o pranto da minha poesia.
Se pra ser poeta é preciso sentir frio,
Sem cobertor ser poeta não me arrisco.
Se pra ser poeta é preciso desprezar...
Ah não, poesia tonta que não quer rimar
Volte a tua fonte de frágeis palavras tolas!
Sei lá, poesia tem dessas coisas.

Lucila Lucet

sábado, 18 de março de 2006

Seize the day!

I went to he woods because I wanted to live deliberately,
I wanted to live deep and suck out all the marrow of life,
To put to rout all that was not life and not when I had come to die
Discover that I had not lived.

- Thoreau

sexta-feira, 17 de março de 2006

Extraordinariamente...


Vira e mexe voltam as idéias 'dead poets society'. E sabe que a cada vez que vemos um filme damos ênfase a um aspecto diferente. Dessa vez a história de fazer a vida extraordinária parou um pouco pra ficar remoendo dentro do si mesmo.

Nessa luta contra desautomatização da vida a palavra 'extraordinário' pesa como umas pedrinhas nas asas da borboleta, atrapalhando seu vôo por conta da pressão dum futuro enuviado (é bom evitar esse tipo de palavras!) que se aproxima. O caso é que sonhamos o tempo todo com 33843829 coisas e fica sempre aquele pensamento 'que no futuro isso, no futuro acontecerá aquilo...'. O futuro donde? Eu vejo o aqui.

O tal aqui é que vai determinar num balanço geral se minha vida foi extraordinária. Não o 'lá' irá fazê-la tal qual se almeja a palavra mágica. É algo 'Jerry Maguire', de se acordar todo o dia e dizer pra si mesmo que o dia será bom. (Com isso me peguei agora com uma nova mania, de no alogamento dos braços pela manhã antes de sair da cama pensar positivamente, em coisas buenas como as várias pessoas agradáveis as quais convivo.)

Sinceramente, aos poucos vou fazendo minha vida extraordinária. Está a passo de tartaruga essa liberdade dos grilhões de coisas chatas a se fazer. Mas na medida em que se vai tentando, passo pós passo, sorriso pós sorriso o peso da asa da borboleta vai dimunindo, as pedras vão escorrendo com o bater mais forte das asas de uma maneira constante.

terça-feira, 14 de março de 2006

No consultório da dentista....

Estava na minha consulta aparelhística de costume, quando constado em mais essa vez que na meia hora que estou ali a dentista insiste em contar pedaços da sua vida.

Dessa vez o episódio foi ‘o namorado’, ela fala pra amiga ‘ele vai entrar de férias amanhã’ (ar enfadonho), a amiga responde ‘boa sorte...’, penso ‘será que ela ta com medo dele viajar, soltar as asasinhas, coisa assim?’. Pobre menina inocente eu, o ‘boa sorte’ se referia a ‘pobre de mim (a dentista) que vou ter de atura-lo agora’. E mais pra frente o desabado ‘ah, eu não agüento mais, tanta coisa pra pensar... só quero vê-lo no final de semana e olhe lá.. Já passou o tempo da paixonite. E não é ele sabe, sou eu... mas como vou falar isso pra ele?’. Boa ‘questã’ minha cara dentista... eu com minha boca aberta entregue aos dedos afiados queria dizer com o olhar adormecido, ‘ahhh, minha cara, não estás apaixonada é o de mínimo, não o amas pra dividir sua vida com ele e ponto. Não se culpe, mas seja franca.’

Tempos atrás era a amiga da minha dentista que sofria: ‘não quero ele de volta... Ele me procura, dá esperança, mas não toma uma atitude. Passamos um final de semana perfeito e depois ele volta pra ela como se eu não importasse...’ (a Fah boquiaberta a essa altura). Acho uma comédia como elas têm facilidade de contar tudo assim no ambiente de trabalho. Com a dentista de Rio Grande era a mesmíssima coisa, a diferença é que ao contrário dessa que quer ficar avulsa, a de lá queria um par perene; e ia eu compartilhando da angústia, do cansaço, dos eventos...

Elas seguem falando, falando e falando. Eu sigo de boca aberta escutando e tentando me comunicar mesmo estando incomunicável. Dou conselhos para o stress, ‘devia tentar natação, uma terapia ocupacional é bom tb, como pintar... que tal uma aula de alongamento?’. No final eu reparo que elas necessariamente não querem um conselho... Querem só ser ouvidas e soltar o bolo todo de coisas confusas dentro de si mesmas. Como uma golfada de criança pequena no babador aquele.

sexta-feira, 10 de março de 2006

It's Friday, I'm in love...

I don't care if Monday's blue
Tuesday's grey and Wednesday too
Thursday I don't care about you
it's Friday I'm in love

Monday you can fall apart
Tuesday Wednesday break my heart
Thursday doesn't even start
it's Friday I'm in love

Saturday wait
and Sunday always comes too late
but Friday never hesitate

I don't care if Monday's black
Tuesday Wednesday heart attack
Thursday never looking back
it's Friday I'm in love

Monday you can hold your head
Tuesday Wednesday stay in bed
Oh Thursday watch the walls instead
it's Friday I'm in love

Saturday wait
and Sunday always comes too late
but Friday never hesitate

dressed up to the eyes
it's a wonderful surprise
to see your shoes and your spirits rise
throwing out your frown
and just smiling at the sound
and as sleek as a shriek
spinning round and round
always take a big bite
it's such a gorgeous sight
to see you eat in the middle of the night
you can never get enough
enough of this stuff
it's Friday
I'm in love


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acho q já coloquei essa música antes... mas o hino dos tempos de patuléia acaba por ter sentido ;)

quinta-feira, 9 de março de 2006

volta às aulas

Reflexões

- Tenho de comprar um caderno de caligrafia.

- Sou lonner por natureza.

- Montar horário é uma das maiores agonias já vividas por um ser humano naquela letras.

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Pra não dizer que não falei das flores (essa expressão q já andei vendo por aí, começou a cair no lugar comum), as aulas seguem aos extremos: ou não tem, ou se tem é puxaaaada. Não vou reclamar não. Afinal o que tem de mais ler poemas em português galego ¬¬

quarta-feira, 8 de março de 2006

não Hei de perder a ternura...

Hj eu tive uma aula com uma professora simplesmente incrível. Ela tem pulso, mesmo não tendo um timbre de voz forte, todos querem ter aula com ela mesma ela sendo 'fresca e chata'. Humor refinado e associações inusitadas no meio de aula que acabam por despertar uma risada ou outra (isso se tratando de fonética e fonologia é algo). Resumindo, quero ser ela quando crescer (e ela é bem a amiga do tio carioca aí em riogrande). Ela reflete bem esse ideal de mulher moderna de ser A Profissional liberal, mas não perder a ternura (como dizia naquela revista alvo de críticas das analistas de discurso de plantão :P).

Até eu mesmo critiquei a questão da ternura, do jeito a ser tratado na revista de visão 'machista' ao fazer um especial pelo dia da mulher como aquela que trabalha, mas tem de cuidar do maridão, dos filhos, da casa e até dela mesma.

Só que, ao pensar de um outro patamar, vi que a questão não é a mulher casar e cuidar de sei-lá-quem-for-necessário. O problema é o 'ter de'. Ninguém tem de fazer nada que não lhe apetece. A mulher não tem de ter aqueles cuidados clássicos com o lar se não lhe é o que chama atenção (contudo terá de trabalhar pra pagar a empregada ). Ela não tem de casar até os 25 pq se não o fizer será A Solteirona da família, (mas tb não é saudável forçar o não-casamento pra mostrar que se é auto-suficiente).

Mulher, na condição que se vê de ter de mostrar competência por todos os poros, não tem mesmo de perder a ternura (o que não quer dizer manter a passividade). Afinal o que nos faz seres excepcionalmente cobiçados é algo que nenhum 'brokeback' poderá conseguir obter com a prática, a tal dita ternura.

domingo, 5 de março de 2006

run Forrest, run!


Estava eu numa madrugada dessas (sempre me perco no tempo e no espaço), vendo o Intercine (programão de férias!), passando o Forrest Gump (devidamente avisada por uma fahbulosa pessoa), o tal contador de histórias. É impressionante a pura beleza daquele filme. A começar pela pena, que por alguns segundos consegue fazer sumir tudo da mente só pra ficar observando donde ela irá parar. Depois vem as centenas de frases simples e belas (dos estilo 'queria fazer coisas bonitas') que dá gosto de degustar.

Cada vez que vemos um filme temos uma visão diferenciada dele e carregamos algo de especial em relaçao a antes (tá aí o pq de ver Amélie 4 dias seguidos...). Sendo assim, desta vez Forrest me pegou desprevinida ao proferir a seguinte frase pra Jenny qdo ela começa a jogar pedras na antiga casa do pai dela e dar xilique: 'às vezes parece que não tem pedras o suficiente'.

E não é que é assim. Às vezes queremos jogar tudo pro alto, nos libertar, mas não há pedras o suficiente. Seguir por um caminho diferente, que posso nos levar a tão idolatrada felicidade... mas não há pedras o suficiente pra jogar naquilo que nos atravanca. Ah, um pouco angustiante a sensação, sufocante até. Não há pedras o suficiente nem pra continuar escrevento tem vezes também. E olha que de pedra eu entendo, colecionava quando criança (mesmo com minha mãe sempre jogando minha coleçao no quintal novamente¬¬).

Além das coisa reflexivas, há as coisas bonitas. O Forrest que cumpria sua promessa. O jeito com que eles (Forrest e Jenny) viam o por-do-sol. O Forrest que não parava de correr, via o oceano e simplesmente voltava a correr. A vida que é uma caixa de bombom... Sendo que no final fica aquela sensação de que todos nós precisamos mesmo é de um pouco tanto de carinho. (ando piegas? maybe, who knows...)

;)

quinta-feira, 2 de março de 2006

O Solipsista

Walter B. Jehovah tinha sido solipsista toda a sua vida. Não vou justificar o seu nome, pois este era realmente o seu nome. Um solipsista, no caso de o leitor não conhecer a palavra, é alguém que acredita que ele próprio é a única coisa que realmente existe, que as outras pessoas e o universo em geral só existem na sua imaginação, e que se ele deixasse de os imaginar estes também deixariam de existir.

Um dia, Walter B. Jehovah começou a ser solipsista praticante. No espaço de uma semana, a sua mulher fugiu com outro homem, perdeu o seu emprego de expedidor e partiu uma perna quando afugentava um gato preto para impedir que este se atravessasse no seu caminho.

Enquanto estava de cama no hospital, decidiu acabar com tudo.

Olhou pela janela, contemplou as estrelas, desejou que elas deixassem de existir e elas desapareceram. Depois, desejou que todas as outras pessoas deixassem de existir e o hospital ficou estranhamente silencioso, apesar de ser um hospital. A seguir, fez o mesmo ao mundo, e encontrou-se suspenso num vazio. Livrou-se do seu corpo com a mesma facilidade e depois deu o passo final, querendo que ele próprio deixasse de existir.

Nada aconteceu.

Estranho, pensou, poderá haver um limite para o solipsismo?

«Sim», disse uma voz.

«Quem és?», perguntou Walter B. Jehovah.

«Sou aquele que criou o universo que acabaste de querer que deixasse de existir. E agora que vieste substituir-me — houve um suspiro profundo — posso finalmente deixar de existir, cair no esquecimento e deixar-te ocupar o meu lugar.»

«Mas como posso eu deixar de existir? É isso que estou a tentar fazer, sabes?»

«Sim, sei», disse a voz. «Tens que fazer como eu fiz. Cria um universo. Espera até que surja nele uma pessoa que acredite realmente naquilo em que acreditaste e que queira que ele deixe de existir. Depois podes retirar-te e deixá-la ocupar o teu lugar. Adeus!»

E a voz desapareceu.

Walter B. Jehovah estava sozinho no vazio e só havia uma coisa que ele podia fazer. Criou o Céu e a Terra.

Levou sete dias a fazê-lo.

Fredric Brown
Tradução de Pedro Galvão
Excerto retirado de What Mad Universe, de Fredric Brown.


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Aproveitei o adjetivo do comentário anterior do Italianinho para 'caçar' esse texto no google. :)

Waking Life




*Sim, são eles de "Antes do Amanhecer", Celine e Jesse.

quarta-feira, 1 de março de 2006

carnaval, carnaval...

Então senhoras e senhores, temos o fim hoje do tal espetáculo popular chamado carnaval. Quarta-feira de cinzas e aniversário da cidade maravilhosa (um aniversário que ninguém comemora ahaha).

Dos dias de folia, que ficou pra mim, é que nada substitui um bom livro (mesmo que ele não seja tão bom assim), um pouco de verde ao redor (mesmo que seja as plantas da avó em jarros) e uns passarinhos cantando (mesmo que seja os dois periquitos da gaiola ao lado brigando por uma fêmea). Ah, crianças também podem dar aqueeeela animada (claro, enxendo a paciência, esperniando e gritando às vezes). Outra coisa que não se pode deixar pra trás em carnavais é zombar um pouco das fantasias dos outros, mesmo que no fundo o maior palhaço seja si mesmo. E depois de tanta euforia posso dizer que dos dias que se passaram eu não perdi nada. Isso, não perdi. Não perdi horas na folia, não perdi horas no meu quarto arquitetando como minha vida poderia ser melhor se eu morasse em outro canto, e, muito menos, perdi o contato com aqueles que me criaram e deram todo seu aponho e carinho pra minha persona desde pequena, passando pra mim de toda aquela bondade de dar sorriso no rosto de ver: meus avôs.

Se eu pudesse compor uma música de sucesso, fazer um poema com instante poético, escrever uma história cativante de ser, certamente gostaria de fazer por eles, daquelas pessoas que abraçam com o coração e só.

Tantas vezes reclamamos de tudo um pouco e pasmaceira de vida. Vai ver falta criar a habilidade de olhar com mais afeto pros nossos primeiros, únicos e eternos amores, nossa família - seres que não escolhemos, porém são nossos por todo sempre.

sábado, 25 de fevereiro de 2006

Meninos e Meninas

Não faz muito tempo saiu no jornal (o nacional), fotos de crianças cheirando cola em pleno dia no centro de São Paulo, até sendo ajudada pelos policiais. Quem vê do jornal tem a chance de só lamentar e achar que algo está sendo feito. Contudo, na minha estadia pela terra da garoa, acabei me deparando com um mar de crianças e adolescentes em pleno pulmões nos seus saquinhos de cola.

Foi um verdadeiro espetáculo de horror, por debaixo de ponte, nas calçadas, sentadas pelos cantos ou pelo meio da cidade, elas estavam com o olhar provocativo de quem diz 'não adianta me evitar, eu estou aqui'. E eu querendo que fosse aquilo minha pura imaginação. Meninas jogadas, meninos ameaçadores. Agora me diz, eles têm condição de serem adultos? Eles de fato nunca serão gente no sentido completo da palavra (com direito, deveres e liberdade escolha). A escolha já tá feita, a rua. O domicílio não podia ser mais cruel, e o show ao ar livre de graça pra estudantes, profissionais, aposentados não poderia ser mais assustador.

Pensamos muito no que vamos ser quando crescer. Elas não tem o direito de pensar nisso, pq elas não crescem. Uma dalas veio em minha direção fixamente e desviou na última hora, fluindo pânico pelos meus poros. Aí o menino deu um risada como se dissesse 'eu não sou esse bandido que vc pensa'. Mas ele não sabia que eu não via como um bandido, mas sim um alguém que não tem nada a perder, por isso mesmo é capaz de tudo.

O caso de viver em grandes centros é esse, a ferida latente. Ali ao lado do espetáculo do 'chera-cola', tinha o redudo pornográfico de São Paulo, com mulheres em pleno dia encarando o movimento e estando paradas nas portas esperando a clientela aparecer. Cine-prives, bares dos mais pé-de-chinelo, pornografia espalhada pelos camelôs (isso nunca tinha visto). Essa indústria é poderosíssima, sabemos, mas precisava estar em pleno vapor a luz do dia no centro de uma grande capital?

Bem, precisei rever meus conceitos pra muita coisa. A principal foi continuar com meta de olhar pelo '3º setor', afinal se nao olharmos, quem olhará por eles? E mais, se não olharmos por eles quem depois olhará por nós quando tivermos nossa casa invadida, nossos filhos sequestrados, nossa vida marcada por essa tal violência?

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2006

livros

Estava eu aleatoriamente indo ao correio (sim, apesar do vício internético não largo tal meio de comunicação), sendo infeliz na minha empreitada, decido ir um sebo a caminho de casa (na verdade é uma banca de revista de canto), e lá começo a remexer nos livros, alguns em estado de decomposição, quando acho no meio deles um sobre lendas mitológicas (com direito a Beowulf!) entao não resisti. Ah, minha intençao era procurar o livro do platão aquele pra ler, Fedro, mas não tem livraria em São Gonçalo (ao menos aqui por perto). Então fiquei com o livro mitológico por R$1,50 (aí se aplica o que tem valor pra um não tem o mesmo valor pro outro). E o inusitado foi achar o seguinte título 'A fabulosa Jaqueline', minha filha já nascerá com homenagens dignas prestadas :P

Falando em livros, as leituras de férias foram em blocos, parte de um livro, parte de outro. Mas o importante não é manter a forma? E começo o ano com a vontade de conciliar mais leituras no período de estudo, pois creio estar perdendo tempo sem ter experimentado de clássicos como "Crime e Castigo", "1984", "Admirável Mundo Novo" (e distopia continua reinando não é?).

Mas deve repetir aqui que uma das minhas maiores alegrias do ano passado foi ter ganhado um livro de aniversário. No universo em que todos se dão roupas, acessorios, porta-retratos (o que não deixa de ter sua importância), um ser iluminado (Lívia Mary), deu-me o "Casa dos Espíritos" (creio estar repetindo isso). Contudo é importante salientar que em nossa cultura livros são vistos como objetos de estantes, e não de desejo, por uma grande parte.