domingo, 14 de junho de 2020

15 anos depois

Quinze anos depois do início desse blog, o encontrei por acaso. Achava que já o haviam suprimido de alguma forma, que ele não existia mais. Minha surpresa foi grande ao pensar nele enquanto escrevia minha relação com a escrita e me dar conta de que ele estava aqui, intacto

O ano é 2020, uma epidemia toma conta do mundo e nos obriga a ficar em casa. Ironicamente  tivemos que nos "desautomatizar", palavra que muito usei aqui por anos e anos a fio. Parei de escrever aqui porque ele parou no tempo de fato: um roxo berrante, um template que não tem nada a ver comigo hoje. Nem o "ai, minha vida" faz mais sentido. Hoje tenho outras expressões cunhadas por mim e que meus amigos reconhecem de longe, como "situation".

Hoje sou professora estabelecida. Continuo dando aula na escola pública com muito carinho e também continuo dando aulas particulares de inglês, além de francês agora. Hoje sou casada com um homem bastante interessante e peculiar. Hoje moro no Rio de Janeiro e já nomeei essa cidade como a minha morada permanente.

No primeiro de janeiro desse ano retornava da França depois de uma estadia de um ano e meio. Um ano e meio de vida européia que certamente mudou e adicionou bastante coisa boa à minha existência. Estudei na Sorbonne, fiz amizade com geral, falei francês pra caramba... Me senti em casa, mesmo não estando em casa. Descobri que realmente tenho essa habilidade de abrir a minha tenda e fazer morada em qualquer canto.

Voltei nesse blog e resolvi escrever para deixar essa lembrança para Fabíola do futuro. Ela vai gostar de ver esse texto aqui. Eu adoraria que eu tivesse escrito alguma coisa todo o ano, qualquer coisa. Ia ficar aqui, nesse meu jardim secreto.

Ah, e voltei por um motivo muito especial: ao fazer a oficina virtual de escrita criativa da Andréia (que me acompanhou boa parte do tempo da existência desse blog e migrou comigo para outras esferas de redes sociais), me lembrei que isso existiu. Existiu por anos.

Fiquei rindo de muitos posts que não entendi o que queria dizer. Ri dos erros de português, a maioria causada por uma digitação muito rápida (eu escrevo correndo correndo). Fiquei rindo e saudosista desse tempo do passado, da minha inocência, da minha transformação em mulher adulta aqui documentada.

Agora eu SOU uma mulher adulta, farei 35 anos esse ano. Quando comecei esse blog, em 2005 tinha 19 anos e iria fazer 20 anos naquele setembro. Uau, que caminhada. A motivação daquele blog foi minha mudança de cidade e universidade (na época migrava da FURG em Rio Grande para a UFRJ no Rio de Janeiro).

Bem, acho que vou ficar por aqui. Já é tarde, tenho que rever minha aula online de amanhã. Além disso Martin termina de estudar chinês em breve e iremos descansar em paz. Provavelmente irei ficar olhando o Instagram por uma meia hora e depois irei colocar o celular debaixo do travesseiro e ir dormir pensando nesse blog, nesse texto, nesse reencontro.

Então até logo, eu espero. Bom te rever aqui.

sábado, 7 de maio de 2016

Os anos se tornam décadas. As décadas reforçam os anos. A espera em cada ano continua,  e continuam os sonhos.  Podem apressar o curso do mar, dos rios, do corredor, mas não hão de apressar esse curso do amor.
Feliz aniversário, my dearest

sábado, 30 de abril de 2016

Mudança dos ventos

A vida mudou. 2016. Tantas coisas emboladas dentro de si, tantos sentimentos desajeitados sendo demonstrados. Pensando bem, a vida não mudou tanto assim.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

O misterioso mundo dela

Todo ano, nesta data, passo por aqui lembrando para mim mesma e para o cosmos que meu caminho se cruzou com alguém que chamaria de minha alma irmã. Não gêmea, porque somo essencialmente diferentes, mas irmãs, porque comungamos de uma compreensão mútua e muito afeto.

Sempre quis ter um irmão, desde pequenininha. Quando a minha irmã biológica nasceu, para mim tinha nascido um fabuloso mistério que haveria de descobrir pouco a pouco. No entanto, o mundo me ensinou a ver que o que está no sangue nem sempre está na alma. E, anos e anos depois de ter vindo para este mundo fui descobrir o misterioso mundo dela, da minha irmã de alma, Lív Mary.

Sem querer pensamos nos mesmos projetos e almejamos uns objetivos bem parecidos, como o de ser fluente em francês (com a diferença dela estar uns bons passos a frente). Também somos apaixonadas por literatura, cinema e divagações da vida moderna.

Cada momento de desafio e dificuldade foi para provar que dentro desse misterioso mundo de Lív Mary há espaço para muito superação. É pensar que não teria como passar por aquilo, até que se passa. Até que se torna mais forte e mais completa.

Certamente o próximo ciclo de vida nos reserva boas surpresas e, quem sabe, mais um tipo de irmandade.


Feliz aniversário, para a melhor irmã do mundo!

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Após a neblina

A ponte Rio-Niterói coberta de neblina, cercada de nuvens, com pouco a se ver além. Nesta ponte passei para retornar ao palco do evento da quinta-feira passada. Queria que o engarrafamento viesse, que o tempo passasse, não precisava chegar na hora. Queria me esconder e passar desapercebida pelos corredores da escola. Mas ao chegar na escola, havia uma conspiração estranha, de um cosmos de bom humor que decidiu me fazer pensar sobre as questões da vida de uma forma diferente.

Ao chegar, imediatamente, uma aluna do 1o ano me entrega umas florzinhas graciosas (que certamente ela pegou no quintal de alguém - algo que eu mesma fazia para minhas professoras quando era pequena). A surpresa e a lembrança me inundaram e, com meu melhor sorriso, subi. A primeira turma, 1601, se acomodava quase silenciosamente. Comecei a aula... Senti uma serenidade. Um aluno não parava de falar, outra me mandava coraçãozinho, outro dizia ter me visto na rua, todos responderam oralmente em inglês o que estavam vestindo. Esse clima se estendeu ao dia: uns me paravam para me perguntar das faltas, dos trabalhos, outros pra dizer que meu cabelo era o máximo, outros pra dizer que eu era muito bonita. Assim, do nada, como se beleza brotasse da terra, como se beleza fosse um atributo daquele dia.

Nos últimos tempos, numa turma deveras complicada, 1701, eles se comportaram bem, muitos faltaram (o que ajudou no comportamento). Conversei com alguns, rimos, corrigimos o trabalho, compartilhamos boas horas qualitativas. Ao sair da escola, encontrei alguns alunos do turno da tarde, e um deles era da fatídica turma. Ele pediu desculpas, disse que não era pra ser assim, que não seria assim. Me deu sua palavra, me deu um grande abraço. No caminho encontrei a arretada da Joice, uma aluna da turma de projeto que fez questão de me abraçar e pedir que subisse pra ficar com eles na tarde.

Bem que deu vontade.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

breakdown


Era pra ser uma quinta-feira normal. Até tomei um picolé depois do almoço na escola (que estava delicioso). Achei que passaria incólume pela tarde de aulas. Tinha três turmas: 1702, 1602 e uma turma de projeto (realfa). Como professora de escola municipal carioca sonhadora, ando meio apagadinha nas minhas aspiraçoes. Mas tento nao passar essa impressao para os alunos. No entanto, hoje foi o dia que, pela primeira vez em 3 anos, perdi o controle de mim, me escapei pelos lados.

Estava na turma da 1602, quando uma série de acontecimentos me levaram para o final de dois tempos na turma entregando os livros de inglês. Era algo simples, descomplicado, a aula estava no fim. A turma tem um espírito bastante presente, mas sao alunos, no geral, que respeitam bastante e escutam o que se tem a dizer. Gosto muito deles. Já os considerei a minha melhor turma. Semana passada fizemos um trabalho juntos que foi bastante proveitoso. Era nessa turma que esperava terminar bem o dia para depois ir para a turma que, talvez, pudesse me dar problemas (a de projeto).

Um momento, uma angústia, uma raiva, um tumulto. Tudo junto. Eles nao me escutavam, eles eram maioria. Eu tentando, do meu jeito, fazer aquilo dar certo. Nao aceitei que pudessem ser daquele jeito. Explodi. Gritei, joguei os CDS dos livros por cima das carteiras, gritei para todos sairem. Façam o que bem entenderem. Podem descer. Podem sair. Eles ficaram sem graças. Uns sairam de imediato. Outros ficaram cabreros. Um dos alunos, ao me ver sair, disse que era pra ficar tranquila, calma.

Subi as escadas para ir na outra turma. Desabei. Em lágrimas. Chorei, chorei, chorei. Enxuguei as lágrimas, fui na turma, deixei minhas coisas (ainda era um pouco cedo e eles ainda estavam com a professora deles). Desci as escadas, fui na secretaria, peguei água, lavei o rosto. Nao parava de chorar. Que choro era esse? Era querer tanto e nao pode fazer melhor. Era pensar que eles eram mais que animais (como chamados por alguns), e seriam mais que bandidos ou vassalos de gente rica.

No final, ao descobrirem que eu chorava (pois o diretor foi falar com eles), um grupo de meninas vieram me pedir desculpas. Ao me verem, algumas choraram tb, pediram desculpas, que isso nao se repetiria. De uma maneira estranha (e nao da maneira que eu queria), vi que realmente fazia parte do universo daquelas crianças. Elas náo sabem o que fazem. Três meninos tb vieram se desculpar. Eles estavam sem graça e bem embasbacados com a situaçao toda.

Chorei. Me envergonhei vendo os quatro adultos daquela escola tentando me consolar, com muita pena da minha aparente fragilidade. Fiquei com muita vergonha de ter me deixado levar "facilmente" pela emoçao. Mas tem como deixar realmente a emoçao lá na porta quando se lida com seus ideais? Well, terei de figure it out. 

Depois, ao verem meu rosto, a turma de projeto (que é fora desse mundo), me deu abraço coletivo, ficaram quietos, levaram a aula na mao deles, me deixaram assistindo a amabilidade deles (isso depois de ameaçar de porrada quem teria feito aquilo comigo, ehehe). Daí que me dei conta que será mesmo difícil de me tirar dessa vida.



quinta-feira, 22 de maio de 2014

don't leave me high, don't leave dry


O sorriso de Ale

Ao acordar e saber da notícia meu pai dizia: é uma tragédia.

Em São Paulo, minha prima mineira sofre. Ela é a mãe de um menino fantástico de 14 anos que sofreu um terrível acidente doméstico. O menino é meu primo de segundo grau. Educado do jeito mineiro, é daqueles mais educados do mundo, adora contar uma história e, sempre senti, é aquele que tinha certa identificação cultural comigo. Ele se encontra em coma conduzido num hospital em São Paulo.

Ao visita-los no final do ano passado (graças a uma amiga, Thaes, que me avisou que iria pra São Paulo e me convidou pra ir com ela), foi o menino que fez as honras da casa: me recepcionou junto com a minha outra prima grávida, botou meu café da manhã, lanche da tarde, procurou filmes para vermos juntos e dividiu comigo suas inúmeras histórias. Uma criança extremamente meiga e carinhosa (assim como a irmã), e cheia de entusiasmo em relação a família e ao futuro.

Hoje, 22 de maio, ao receber a notícia do estado do menino nossa casa parou. Eu, por mim mesma, parei. Tinha de ir na assembléia da prefeitura, buscar um livro de testes em inglês e pesquisar carro com meu pai na rua. Seria um dia agitatinho. Seria... Minha mãe quer cancelar o pequeno aniversário de minha irmã no sábado, meu pai desistiu do carro e não se sente bem. Eu, em pedaços, me desconectei da internet e estou a pensar, cá com meus botões, se é possível um pequeno belo milagre acontecer.

Faz muito tempo que não sinto tanta tristeza junta. Com o câncer de mamãe aprendi a dosar tristeza na rotina. Não estava preparada pra sentir essa invasão bárbara e cruel. O que me faz sentir triste em demasiado são as pequenas coisas: ele fez aniversário no meio de maio e, apesar de sentir vontade de mandar uma bela mensagem de aniversário, mandei um simples “feliz aniversário”, pensando em condensar pessoalmente todas as palavras de carinho logo ali, em julho. Triste porque apesar de amar muito minha família, encontro muita dificuldade em manter contato, visitá-los. Parece, pra eles, que sou muito indiferente e só penso na minha vida cultural e viagens. No entanto, cá com meus botões, penso neles e estava mesmo bolando planos de aproximar mais e mais de todos os lados da família (tanto de mamãe, quanto de papai). Tentando aproveitar o máximo da minha vida, às vezes, deixo de aproveitar o máximo da minha vida junto de pessoas da minha vida.

Estou mesmo na maior da esperança e expectativa que esse mocinho falante volte para gente. Que ele venha me contar MUITAS histórias, vou escutar todas pacientemente. Vou fazer mais esforço para visita-los, para abraça-los, para mostrar o imenso amor que tenho e que não cabe dentro de mim. Tanto que agora ele transborda em forma de lágrimas. Muitas lágrimas. Elas saem naturalmente, sem nenhum esforço, enquanto penso, enquanto escrevo, enquanto espero aquele tagarelinha nos surpreender com seu melhor sorriso.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

O tempo de Lív Mary

Há 9 anos atrás a geografia me favoreceu e me veio para na existência uma certa mocinha opinativa, cheia das ideias e das boas perguntas que, certamente, deixou boa impressão desde o primeiro dia. Foi bem nos meus primeiros dias que a vi, levou-se alguns meses para nos reconhecermos como colegas/amigas/confidentes. Desde lá, o que posso fazer? Respeitar... O espaço dela, as questões, o tempo para lidar com os acontecimentos, o fato de não gostar de aniversário (isso é algo que realmente não entendo, aniversário é tão bão). Mas justamente isso que mais aprendi com Lív Mary: a respeitar.  Respeitar que ela gosta dos Backstreet Boys (ehehe), que ela é muito muito muito fã de histórias bem teenagers (mesmo tempo uma subjetividade super aguçada). E isso não é uma crítica: isso é na verdade refletir a aceitação e entender que a amo por todos esses detelhes.

Feliz aniversário para ela, que não gosta de aniversários. Que não passeia comigo (aah, ciúme). Que também me aceita assim como sou, aleatória na vida.

(e precisamos de uma foto nova)

06/05/2014

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Do deboche ao desdém: na diacronia da vida de uma trabalhadora de Letras

Sinto dizer: sua profissão não te qualifica como profissional de alguma coisa. Ser professor? Faça-me o favor! Get a life! Melhor, get a job!

Tudo começou em 2003, sentindo-me estrangulada com aquela historia de fazer contabilidade, decidi que tinha de achar o que AMASSE fazer. Aquilo que me recompensaria como ser humano, como ser pensante, como SER sendo deste mundo vulgar. Em fevereiro de 2014 um aluno se esforça, no seu inglês macarrônico, em explicar que o "professor" do curto texto que leu em inglês não era igual mim. Pensei eu que isso se daria porque, na verdade, ele quisesse dizer que o "professor" do texto era um pesquisador. O que realmente ele quis dizer: eu era uma estagiaria, não era? Quanto você ganha? Então, não pode ser igual, não eh?

Confuso, confuso. Em novembro de 2007 o meu primeiro relacionamento acabaria. Eu ainda não sabia. Mas acabaria. Juntamente com o trabalho entregue de fonética, o qual me dediquei fielmente esquecendo que existia namorado no mundo. Em setembro de 2008 tinha decidido: voltaria ao Brasil, terminaria o ultimo semestre da faculdade, terminaria também o namoro/noivado. Sentia tanta falta  de estudar. Larguei o Canada e suas varias formas de cidadania que naquela época me oferecia. Quanto eu ganho hoje? Realmente precisamos falar sobre isso? Ganho menos a hora aula do que ganhava fazendo companhia a uma velhinha, Minnie. Ela me adorava tanto que no dia 25 de dezembro ela preferia passar o natal comigo do que com o filho. Aquele era o dia mais esperado no ano por ela, pois era o único dia que passava com o filho.

Abril de 2009, da minha geração de amigos da faculdade sou a unica totalmente estagiaria: tanto na Cultura Inglesa, quanto no CLAC. Nao me importava com o quanto ganhava, me importava com a experiencia e o quanto isso  realmente me renderia no futuro. Fevereiro de 2014, trabalho como professora de inglês na prefeitura do Rio de Janeiro. Trabalho dando aulas particulares. Enfrento questionamentos nos dois segmentos por não poder abarcar no meu horários todos os alunos que o gostariam.

Fevereiro de 2004, começo a faculdade de Letras na Universidade Federal do Rio Grande - Sinto-me orgulhosa por ter passado com brecha em dois vestibulares de faculdade publica, sinto-me exultante por conhecer pessoas novas que tudo tem a ver com a minha personalidade curiosa. Junho de 2003, decido que farei Letras. Decido que farei Letras e darei aulas em escolas publicas, porque devo, acima de tudo, pagar minha divida social por estudar (futuramente) em uma universidade publica. Penso que sera difícil, mas que esse não pode deixar de ser meu objetivo. Outubro de 2011, sou obrigada a tomar posse imediatamente como Professora II de inglês no município do Rio de Janeiro.

Dezembro de 2007, passagens compradas: vou ao Canada. Nao sabia ainda que passaria o ano neste pais. Dezembro de 2013, planejo a festa de 10 Anos da Bolha Social (da turma da UFRJ). Dezembro de 2004, me despeço das Reles Patuleia, a turma da FURG. Sinto que eh tempo de mudança, maktub, nem me esforço muito para mudar o destino.

Maio de 2002, aluna exemplar da Escola Técnica de Comercio de Sao Francisco do Sul. Descubro que terei de me mudar para Rio Grande - RS. Professores lamentam que a interrupção nos estudos: seria uma excelente contadora, seria uma irresponsabilidade familiar me tirar dali. Junho de 2012, faco uma prova para trabalhar em um novo curso de inglês para crianças em Niterói. A coordenadora se admira: tirei a segunda melhor nota ate aquele momento. Eu me admiro, mas lembro do quanto me esforcei no tempo de estagiaria para chegar ate ali.

Cursos de inglês quebrados. Disciplina. CAE, CELTA. Simpatia. Paciência. Amor. Psicologia. O que não leva essa receita de ser professora em 2014? Certamente não começou em 2014. E nem por aqui termina.

Poderia ser enredo de Carnaval. Poderia ser letra de um samba triste -  perdi tudo, ganhei muito mais: minha dignidade persiste.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

adote um bandido

Sheherazade falou pra quem quis escutar: adote um bandido. Vc adotou o seu?

Usa palavras como "marginalzinho", ela adota uma posição um tanto quanto questionável. Nao eh nem sobre achar SUPER legal amarrar um ser viver a um poste. Nem disso que falo. Mas achar que toda serie de crimes e barbáries nas nossas cidades serão resolvidos por um grupo de justiceiros. Justiceiros pautados pelos mesmos princípios do dela que jogam aquele "marginalzinho" contra uma grande parede social restando uma realidade coagida e cruel.

Houvi alguns dizerem esses dias "mas o pobre tem escolha". Creio que classe media desse pais esta se tornando pior que os ricos da mesma. Afinal, quando seu filho aparece drogado: tadinho, vitima das pressões. Quando se dopa em anti-depressivos sem prescrição medica: pobre pessoa, tem muitos problemas na vida. Tem teto, tem infra-estrutura básica, mas justifica-se a ação dos seus pares facilmente.

Sabe, Sheherazade, eu adotei meu bandido. Leciono em escola publica e já lidei com casos extremos de desistência de alunos para a  "bandidagem". Sabe o que eu faco? Tento ver melhores maneiras de cativar esse jovem, perco minhas noites de sonho montando estratagemas.

Acho que pelo deboche de "essas pessoas dos direitos humanos", deveria mesmo era estimular a ruindade desse aluno, chama-lo de animal, faze-lo se sentir bem baixo e vil, estimular o ódio sem sentido pelo próximo, pois ele não possui nada: eh um diabo sem rumo na vida. Ops, já tem quem faca isso: gente como vc. E vc realmente não sabe pq ele fugiu daquele hospital, neh?

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Peguei o ônibus errado

Hoje peguei o ônibus errado indo para Niterói. Na hora da baldeação tive a capacidade de correr e correr atrás do ônibus que achava ser o 62.  Atrás vinha o 61, que certamente me supriria: deixaria perto do curso, só teria de andar um pouquinho mais. No entanto, corri atrás do ônibus que me deixava pra trás, pequei o 22. O sentimento de vê-lo virar pro lado “errado” não era pior do que o sentimento de que tem algo de muito errado. Por que peguei o errado? Por que tem de ir pra aquele lado? Por que tamanha distração?

Não me custa muito responder essas perguntas. Na verdade, a viagem de ida a Niterói já foi um profundo brainstorm de questões. Estou com 28 anos e continuo pegando o ônibus errado. Continuo achando que “basta ser do jeito que sou” que tudo vai ficar beautiful no final da história. Baita equívoco: a gente tem de deixar de ser e navegar um pouco nas águas da flexibilidade. Deixar de correr atrás do que acharia que poderia ser, porque, na verdade, a chance de ser o ônibus  errado é muito maior se estamos no calor da hora e no atraso do tempo.

Sinto-me profundamente atrasada no tempo. Tenho 28 anos. Vinte e oito. Dia desse era vinte. Dia desse era 8 anos atrás. Sinto que tenho de me mexer, que tenho de correr. Mas e se eu pegar o ônibus errado de novo na afobação disso tudo? Creio que isso que esperam: que eu corra, me arrisque pegando o ônibus errado e que depois dê meu jeito mágico pra contornar tudo. Daí que hoje, já me lamentava que teria de andar muito pra pegar o ônibus certo, quando me deu um estalo: não é pra eu ir em frente, é pra ir pro outro lado, andarei menos, embora pegue o ônibus cheio. Foi o que fiz, dei a volta, esperei todos os sinais abrirem e fecharem e andei pra trás.

Voltando pra trás me dei conta que era isso com as questões. Não que eu tivesse de deixar de Ser, de deixar de chegar lá, ao meu destino. Simplesmente tinha de procurar um caminho que não fosse tão tortuoso, porque se o ônibus já está errado não adiantaria mesmo chorar sobre o leite derramado. Agora quero voltar, quero compreender, quero engolir seco o que eu acredito para sentar na mesa e dialogar: dialogar comigo, com os outros, com a minha mania de achar que já estou dialogando por simplesmente existir.

Peguei o ônibus errado. Mas vou chegar onde eu deveria ir. 

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

To be or not to be: um recorte sobre a greve dos professores do município do rio

Desde o princípio da greve, no dia 08 de agosto, a questão principal entre os professores, na minha opinião, é a adesão dos próprios. Ao anunciarem a greve, na quarta à tarde, eu mesma andei pesquisando entre os profissionais amigos próximos a fim de coletar quem estaria aderindo ou não ao movimento. Daí vi dois extremos se formando: os que aderiram a greve com direito a passeatas, camiseta e tudo mais, e os que estão com horror a greve, com direito a se sentirem agredidos e coagidos pelos grevistas.
A questão é: tive de me retratar com amigos professores não grevistas sobre minha posição. Agora também tenho de me retratar com amigos grevistas sobre minha posição. Não entendo: por que tanta retratação, meo deos?
Um lado não quer comprometer o salário, as férias, a posição na escola. O outro quer o rim do prefeito e da secretária de educação. O que EU quero? (eu só quero é ser feliz, andar tranquilamente na favela onde eu nasci, é...). 
Bem, musicalidade a parte, claro que quero mais respeito para com a classe (que é a minha, by the way), e um plano de carreira digno; para de ouvir piadas sobre nossas férias de mais de um mês por ano, se uma pessoa comum estivesse exposta ao que estamos regularmente iriam entender bem a história das férias. Não atoa a classe professoresca é atuante assídua na farmácia atrás de rivotril e cia ltda. Outra reinvindicação interessante: vale farmácia. Afinal, quantas vezes no ano tive sérios problemas na garganta? Com um vale farmácia, atenuaria a questão, já que problemas na garganta não é motivo para qualquer tipo de afastamento no trabalho.
Obviamente, sou do lado grevista. “Obviamente” pra quem me conhece levemente. Apesar de ponderar no início, sabia que esse seria meu destino. Deste modo, assumi minha posição e os motivos que me fizeram optar por ela, mesmo arriscando salário, mês de férias e afins. No entanto, passado mais de um mês de greve e com o triste episódio de professores sendo arrastados por policiais pra fora da câmara, parece que o sangue subiu aos olhos e todos professores que lá estavam presentes QUEREM SANGUE.

O que não entendo é o vandalismo dos que lá vão, acampam, militam corporalmente, mas perdem as estribeiras morais ao dizer que o colega de classe (que o próprio militante louva defender), não deve aceitar o aumento de salário e demais benefícios vindos da greve e da luta. Primeiro, a luta vai além de ir lá, invadir câmara, de levar porrada.  Se alguns apanharam, uma pena. Mas todos não precisam apanhar pra entender a importância disso. Ponto. Segundo, se eu estou participando das caminhadas, protestos e etc, devo ter a serenidade de cativar os colegas não-grevistas, e não a empáfia de achar que o que EU faço é o mais correto. E se o outro não achar? Simplesmente:  o óbvio não é obvio pra todos.
Dentro dessa greve ou de qualquer outra manifestação ou união de classe enfrentamos UM grande problema: de ser humano. A gente quer mudar o outro, obrigar, intimidar e não OLHAR com uma perspectiva diferente dos olhos cheios de sangue ou cheios de indiferença.  Há muito mais por trás dessa greve que supõe nossa vã filosofia: são muitos profissionais de diferentes formações e diferentes opiniões, e um sombrio maquineísmo político dos lados de Paes e do próprio SEPE. Contentemo-nos então com a maioria.
Por último, dentro de uma classe desaculturada que é a nossa dos professores, é uma vergonha TOTAL ver colegas desencorajando os demais a participar dos eventos da cidade (como o festival do rio), ou de simplesmente sair; parece que os companheiros revolucionários estão até o pescoço de nossa herança cristã de querer catequizar a tudo e todos com a premissa do sofrimento e do padecimento.

Greve, sim. Extremismo político, não.

Tenho dito, esta é minha posição. 

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Um belo dia pra começar Ulisses. Diz-se que precisa só de um dia.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Minha vida com ela

Realmente complicado pra minha persona falar sobre o câncer da minha mãe. Ele descobriu por volta de um ano que estava com câncer na faringe. Daí veio a primeira reação: o drama. O segundo estágio: quimioterapia. Até chegarmos, um ano depois, no estágio da radioterapia.

No primeiro estágio tudo era um pouco assustador: e agora José? Realmente, a festa parecia ter acabado. Particularmente na minha família, composta de pai, mãe e duas filhas, eu parecia a pessoa mais centrada, otimista e desprovida de qualquer desespero. Por dentro, estava incontrolavelmente assustada. No choque de mim mesma, passei a ser uma pessoa retraída. Retraída no trabalho, não fazia tanta questão de sair com os amigos, passei a querer encarar a minha vida social só comigo mesma. Engordei  uns 9kg, não tive as boas conversas que me fariam bem, não bebi os chopes eternos que me aliviariam a alma, não deixei ser gostada por ninguém.

Mamãe, papai e irmã contavam fielmente com a minha habilidade discursiva pra convencer a todos de que essa tal doença era muito mequetrefe e que não teríamos consequências negativas, afinal, tecnologia e medicina andam juntas. Só que eu mesma precisava da minha fé. Vi e revi todos os filmes de câncer, encontrei uma historinha em quadrinho que falava justamente do rapaz que tinha a mãe com câncer, via e revia as cenas mais dramáticas de todos os filmes sobre câncer, ouvia músicas tristes o tempo todo, me alimentava de tudo que falasse sobre o assunto. No inicio era legal, mas depois de um tempo, comecei a me sentir desconsolada. Descontei no chocolate. Descontei em mim mesma.


Os ânimos mudavam dia pós dia. Todos ficavam mais e mais exasperados, mais e mais passivo-agressivos. Eu, continuava a mesma por fora, na calma de vidro, intocada aparentemente pelo desespero constante. Só que ninguém sabia o que estava por vir... Um bem/mal chamado quimioterapia. 

to be continued... 

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Prazer

Na sexta-feira passada, como havia de ser, fui ver a peça no CCBB baseada na obra de Clarice Lispector chamada Prazer. Fui só, como haveria de ser. Fui saltitante, esperando algo grande. Fui esperançosa de me tirar aquela fadiga rancorosa.

Chegando lá, vendi o outro convite que tinha, just in case alguém comigo iria ver a peça como haveria de ser. Vendi para uma moça desconfiada, que dizia não gostar de Clarice, mas ainda assim ouviu o que eu disse sobre a talvez interessante peça e decidiu que iria vê-la.

Chegando lá dentro, meu lugar era perto. No palco, 3 homens e 1 mulher no centro: escreviam frases e citações de Clarice. Fiquei a espionar, a mulher chegou do meu lado a sentar... Deu uma apreensão: vai que o programa não fosse bom?!

No entanto a peça foi linda: no início meio confusa, meio turva. Falavam de uma herança imaterial: coisas boas que um tal falecido tinha deixado anotado para que os outros fizessem ou tentassem. Falavam coisas bonitas, pôr-de-sois e peripécias da vida.

Mas o tom da peça foi mudando... Eu fui mudando junto. Comecei a gostar daquele profundo que foi se amostrando. Um abismo abriu-se no palco: cada amigo tinha um conflito. O conflito do espectador estava um pouco em cada um deles. Comecei a sentir o mundo girando por dentro, as frases como redemoinhos dentro da mente aleatória e sucumbi a mais profunda reflexão de meu ser.

Coisas marcantes: trataram da desautomatização da vida, que é algo que está presente sempre aqui e que tento definir e defender sempre que posso; tocaram "Viva La Vida" do Coldplay no final, e isso gerou um eco de emoções dentro de mim; por último, chorei pela primeira vez numa peça.


Saí de lá rindo, fui em direção as barcas sem saber se tomaria de certo as barcas. Estava com uma saia comprida preta e uma blusa branca de bolinhas roxas. Sei que chegando na praça XV comecei a ver umas pessoas correndo e comecei a correr junto... Logo me dei conta que eu deveria mesmo correr junto para não perder a barca das 21h. Mas eu corria porque era bom correr ali, como correndo do bege que nos confronta junto com o cinza. Corri e ri. Ria e os outros olhavam. De repente minha saia (que se encontrava na altura da linha da cintura),  começou a descer... Eu continuei correndo como criança, apostando corrida comigo mesma. Esbaforida, chegando na catraca, me dei conta que o cartão de passagem estava num sei lá aonde bem misterioso dentro da bolsa gigante. Parei abruptamente, fazendo aqueles atrás de mim também parar, procurei por uns segundos o cartão, temendo que a catraca se fechasse... ACHEI! Rindo sem parar da cena toda, passei pela catraca, o segurança me olhava, corri em direção da barca: era a antiga. Adentrei o recinto, parei em algum lugar entre lá e aqui. Fiquei no meio, contemplando aquele mar de gente. Fiquei em pé. No meio da travessia olhei para fora, olhei para a ponto Rio-Niterói alaranjada lá no fundo. Em pensar que semanas antes passava por debaixo dela num sentimento de ser a pessoa mais feliz do mundo. Ensaiei uma tristeza e logo reparei que chegava em Niterói: iria para casa, finalmente, iria descansar, finalmente... Estava esgotada, não conseguia parar com meus olhos abertos. Iria aguardar sábado chegar com toda sua inexatidão e aleatoriedade. Iria fechar os olhos, enfim.



Prazer fica em cartaz no CCBB ate 02/06, 19h.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Das brigas

Uma escola com muitos jovens e crianças em ebulição, obviamente, terá muitas discussões, brigas e afins. Tenho ainda o orgulho de apresentar uma marca recode praticamente de não-briga com os alunos (de mim para eles). Em compensação, entre eles o couro come.

Ano passado, quando lecionava numa sexta-feira a tarde, quase toda bendita sexta tinha uma briga literalmente na porta da minha classe nos dois  últimos tempos.Acho que já marcavam "vamos brigar ali na frente da aula de inglês da professora que menos briga com alunos... a antítese no apetece". Claro que não era de propósito, mas a repetição me fadigava um pouco.

Os alunos que brigam são, essencialmente, os mesmos. Pode mudar o teor da briga mas os brigadores... Por exemplo, na turma dos pequenos tem sempre o João (com seus bright green eyes) que briga com Vinícius. Tem o Rodrigo que briga com todo mundo. Tem o Joseph, todos brigam com ele. Os pequenos rolam do chão, logo estão de bem, se abraçando loucamente, como melhores amigos da vida.

Já nos maiores as coisas são mais complexas. A briga é uma forma de mostrar que se tem poder e é o maioral, além da aceitação do grupo. A briga é algo gerado por uma histórias de pequenos enfrentamento entre os contestadores e quando sai... Não há santo que separe! Dias depois todos voltam a ser amigos, mas o processo de exclusão do mais fraco é bem cruel.

Hoje mesmo presenciei uma briga na 1401 por minha causa, olhe o despautério! Os alunos desciam para o recreio quando o Ronald, por tropeçar no Hiago, esbarrou nas minhas coisas. Hiago, nada fácil, começou a esbravejar com Ronald por ele ter esbarrado "nas coisas da professora". Estava eu desligando o computador, o datashow e de repente, lá na porta da sala (como eles gostam de brigar na porta da sala!), era uma verdadeira BRIGA. Os dois se enrolando no chão, e eu pedindo para separem. Mas os meninos são covardes, não separam... Os rapazes da 1701 (no corredor atiçados pelo "briga, briga" dos menores), foram os que conseguiram me salvar daquela situação. Digo "me salvar" porque não me apetece os dois se esbofeteando. Peguei Ronald, arrastei para dentro da sala enquanto os outros desciam. Ele ficou lá comigo, me ajudou a guardar as tecnologias e carregar meu material. Perguntei o porquê e pedi para me prometer que não brigasse no recreio (porque os coleguinhas iriam atiçar o confronto). Ele prometeu e cumpriu. Boto fé no Ronald, apesar de sentir que as coisas não são nada fáceis pra ele.

Poderia passar a tarde aqui narrando as homéricas brigas entre Glaucodenis e Rickelme, ou do o agora ex-aluno da escola, Wellington com muitos outros garotos. A questão é que a temática se repete em si. Os nomes é que criativamente mudam. Por isso que acredito piamente que como professora tenho de oferecer algo diferente: amor. Não brigo, não discuto, só peço e aconselho. Com isso eles sentem realmente que podem me escutar na hora que peço para que  não briguem mais. Apenas creio. Pieguice não vai salvar o mundo, mas ajudar nessa batalha de pequenos titãs.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Feito gente grande (Du vent dans mes mollets)


Feito gente grande. Um filme sobre uma garota introspectiva e seus pais tentando fazê-la se abrir com eles e com o mundo. O tempo inteiro um desafio entender aquela garota, mas ao mesmo tempo, um enigma facilmente decifrável para sua melhor amiga. Dei boas risadas, gargalhei com vontade das peripécias infantis. Confesso que me identifiquei com boa parte das coisas. A diferença é que nunca “precisei” de uma amiga para me sentir feliz como a pequena do filme.


Ri como nunca e ao final, sem misericórdia, chorei... Chorei como uma criança. Chorei porque me restou uma tristeza aqui dentro. Aquela tristeza de que as relações poderiam ser muito mais profundas do que são. Que poderíamos ser mais como as crianças, nos doar, necessitar da melhor amiga como se fosse uma falta tremenda de oxigênio, criar amores platônicos como quem abre uma caixa de doces. Mas não somos assim, somos adultos demais. Temos de respeitar o nosso sentimento (seja lá o que isso signifique) e os dos outros (seja lá o que isso signifique). Temos de manter distancia saudável, fingir indiferença, não sucumbir as palavras bonitas, pois onde há elogios deverá haver a dúvida.
Temos de viver em dúvida. Viver como adultos com dúvida. Viver tristes como adultos com dúvida. A dúvida é que faz a gente levantar pela manhã. Ou seria a dúvida que nos faz não querer levantar pela manhã? Isso vai depender do temperamento da pessoa, creio eu. O ponto é: temos de corroer nossa alma porque não podemos manter a clareza de infância e sentir/falar/agir com coerência?
Saí daquela sala de cinema aos prantos, pensando tudo isso, e mais nas minhas peripécias de infância, que não  foram poucas, podem apostar. Ainda não tenho coragem de falar abertamente sobre isso. Ao saí me deparei com as pessoas da sala de cinema ao lado saindo junto. Tinham assistido homem de ferro III. Eram muitas, uma horda de gente, como gado se espremendo no corredor. Eu fui a primeira a sair do filme francês, timidamente, com meus olhos ainda um pouco marejados, olhando para os lados, aquela bagunça toda, aquelas meninas com decotes impossíveis, todos os rapazes vestidos iguais, todos naquele sábado procurando diversão. Eu procurando o choro, a minha infância e entender o ser humano.
Ao procurar a saída, dentro de um shopping é quase impossível não observar o escravo silêncio dos vendedores. Muitos sozinhos. Alguns em grupo. Todos em pé e calados. Olhavam atentos para o nada. Dentro de si não havia nada. Umas com muita maquiagem, outras com o vestido da coleção, todos parecendo ridículos e inúteis. Todos pensando que poderiam estar vendo o Homem de Ferro III ou simplesmente assistindo qualquer coisa na TV em casa. Mas não estavam, estavam trabalhando. Trabalhando porque precisam do dinheiro para pagar as contas de casa e, é claro, ir assistir ao Homem de Ferro III. Ninguém quer ir ao cinema para chorar. Ninguém.
Eu sou tão ninguém nisso tudo. Um invisível que salta aos olhos: “ela está sozinha”, “ela lê alguma coisa, o que é aquilo? Um livro?”. Ela salta aos olhos. E tem olhar certo, fixo, sem titubeio. Ela perscruta todos ao ser redor: ahh, o vazio! Os papos mais desperdiçados. Todos na luz branca que apazigua o vazio de tudo. O limbo espiritual. Estar numa margem de rio sem água, pensando que aquele rio é o mais fresco do mundo. Enquanto isso, um dilúvio na minha cabeça, de pensamentos, de imagens, de sons, cores. As cores são quase incontroláveis. Ver as pessoas em cores, os acontecimentos em cores, a vida em cores... Isso custa um pouco! Mas meu olhar continua ao redor de tudo, duvidando um tanto do espetáculo cruel que nos colocam.
Ninguém quer chorar, ninguém quer ler. No entanto, também não queremos rir:  aquele sentimento de felicidade plena que vem da alma, e quando vai, nos deixa nostálgicos. Nostalgia dói.  Queremos rir das peripécias do homem de ferro. Das brincadeirinhas previsíveis. Quando a pequena do filme vai contar a história da professora com o professor de educação física e resolvem fazer um teatrinho com as barbies, vem uma risada, uma vontade de rir do absurdo, de como  nós mesmo já fomos assim: imaginativos e absurdos. A menina do filme adorava fazer teatro com as bonecas. Eu também gostava. Fazia com tudo, com os objetos da penteadeira da minha mãe tinha um grupo de teatro. Tinha história de tudo, e, é claro, sempre tinha um drama. E essas conexões, filme-eu, são o que geram as melhores risadas e o mais límpido dos choros.
O choro nos impõe sair da inércia, fazer a cabeça sacudir daquelas pipocas e vitrines e despertar para a não necessidade de comprar coisas que não precisamos. Ser sensível nesses filmes é a catarse que preciso para concentrar uma idéia, concentrar no que é real. Facilmente confundo a realidade das coisas não reais. Facilmente sinto que posso fazer algo que na verdade não posso. Desde pequena, quando me vejo em momentos que acho que podem ser criações de meu mundo solipsista, simplesmente abro as mãos, com as palmas viradas para baixo, olho, sinto elas se esticarem: é real. Quando está acontecendo algo muito ruim, ou algo muito bom, sempre faço isso, abro as mãos, estico, e sei que aquilo realmente está acontecendo. Coisa de criança.
Tenho muitas dúvidas sobre a idade que deveria ter, sobre a idade que daria ao meu coração. Acho deveria ter mesmo 27, só que meu coração tem 87. É rabugento, indomável e mal acostumado. Ao mesmo tempo, tem compaixão, entende os problemas de todos como se ele mesmo estivesse passado por tudo aquilo. Adulta ou criança, um pouquinho das duas coisas, o que eu gostaria MESMO era o despertar sereno pras coisas mais importantes, Les petites choses. Mas eu mesma venho dormindo bastante.
Creio que esse texto todo seja para lembrar a mim mesma que posso ser melhor, que posso tentar despertar eu mesma da minha embriaguez e tentar enxergar as coisas do jeito que elas são e, principalmente, do jeito que elas não são. Só as coisas não sendo para serem mais do que nunca, como se tivessem realmente sido. Eu quero ser, eu escolho ser. Ser grande ou pequena, não importa, eu quero ser e no processo de ser sendo,
lembrar a todos que amo (porque quem É, ama acima de tudo) que todos nós Somos. 


segunda-feira, 13 de maio de 2013

Era uma vez um dia...

Em que o roxo virou cinza.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Das danças, das brigas

Hoje foi um dia produtivo na escola. Acho que não contei aqui: trabalho numa escola pública no município do Rio de Janeiro. Sou professora de inglês. Tento ser uma boa professora de inglês. Tento mesmo.

São diversos pequenos problemas num universo complexo escolar. Há anos venho discutindo nesse blog minha vida lilás de estudante universitário fahlida. Agora sou uma professora nada universitária querida. Querida pelos alunos, óbvio. Eles têm muito amor. E eu tento retribuir com sorrisos e abraços.

Ensino inglês desde o primeiro ano (criancinhas de 6 aninhos) até os do sétimo ano (adolescentes por volta de 13, 14 anos ou um pouquinho mais). Desde o ano passado faço parte da vida dessas crianças e elas da minha. Uma troca muito justa de conhecimento, dedicação e amor. Piegas, pode até parecer, mas é o que segura um ambiente banho de bullying, xingamentos, afrontamentos e desafios.

Quando entrei em Letras não tinha muita noção das coisas, mas sabia que:
1) Queria trabalhar com literatura
2) Trabalhar em escolas públicas por um tempo

Quando pensei essa coisa toda de escola pública morava no Sul do país, teoricamente muito mais tranquilo que dar aulas em escolas cercadas por morros cariocas. No final, não vejo mais por "fácil" ou "difícil", mas simplesmente me adaptei ao meu contexto e estou feliz com ele.

E o que tem dançar com tudo isso? Hoje dancei com as crianças todas no pátio. Uns do ginásio se juntaram, e eu lá no meio, ajudando as professoras regentes, tentando fazer com que as crianças pegassem os passos dos dias da mãe criados por dois alunos do 8º ano (que também foram meus alunos), ao som de Claudinho e Bochecha com o "fico assim sem você". O engraçado é que me dei conta que indo para meu segundo ano na escola eu conhecia e tinha boa relação com praticamente TODOS os alunos do pátio. TODOS tinham sido ou eram meus alunos. Foram juntando mais gente, mais gente... mais gente... E mais alunos. No final, vinham de dar "good bye" ou um abraço. E eu ia retribuindo a todos.

Dancei com os alunos, me senti parte daquela escola por completo. Vi claramente que um ano de trabalho árduo tentando incutir o inglês naqueles alunos não foi em vao.
Das brigas, falo depois...